Nossa história constrói-se agora na luta contra a tirania do capital[1]
A política, segundo Hannah Arendt e Jacques Rancière, é uma atividade que deve apontar para uma preocupação do que é público, de domínio comum, dessa maneira deve-se analisar três fatores importantes: a política se dá no debate e reflexão, é ação conjunta e coletiva e tem como foco uma reparação de problema ou injustiça. Por esse espectro não usar drogas não seria uma atividade política uma vez que parte do âmbito individual (privado) que sem reflexão aparente pode-se dar de maneira involuntária em qualquer ambiente, não só no punk/hardcore. Entretanto, a reflexão consciente de um grupo de indivíduos cerca a um ideal comum, a ação prática em suas vidas de suas convicções e o potencial do privado para o coletivo não coloca o Straight Edge como política, mas como um possível meio para que seus membros transformem-se em atuantes políticos.
Pessoal ou político, é tudo a mesma coisa. O pessoal é político. As decisões que você toma em sua vida pessoal afetam os outros em suas vidas políticas. O straight edge deveria ser só o começo.[2]
Posto isso o Straight Edge relaciona-se com a política da mesma forma que todo o movimento punk. Atitude libertária crítica ao Status Quo e negação de valores sociais. Um Straight Edge normalmente identifica-se com uma postura de não violência, consciência política e atitudes não conformistas, defendendo igualdade e o direito a diversidade, opondo-se a qualquer tipo de repressão social, racial e homofóbica. Não há uma militância especifica embora a maioria dos membros quando assumem uma postura política de forma mais intensa tendem a associarem-se as idéias de esquerda, comunismo e anarquismo.
“O Hardcore emergiu como contra-cultura de protesto e resistência ao sistema capitalista e aos padrões de comportamento massificados da sociedade. Criticando as diferentes formas de exploração das elites de seus paises, assim o Straight Edge inserido nesse meio é, essencialmente, uma resistência anti-imperialista também.” [3]
Ideologias políticas a parte, o Straight Edge apresenta-se essencialmente político. O consumo de drogas lícitas ou ilícitas traz conseqüências que ultrapassam a autodestruição e a esfera particular do usuário, transferindo-se para uma esfera social, muitas vezes despercebida pelo imediatismo e organização da pós-modernidade.
O governo como concepção é um órgão institucional que por consenso democrático de uma população deveria cuidar e zelar pelos interesses comuns da sociedade a quem representa. Ao contrário disso o que vemos é uma co-parceira entre governos e indústrias de cigarros e bebidas alcoólicas, sustentada pelo lobby dessas corporações e pelo interesse econômico na receita criada por impostos altos cobrados as companhias, que saem diretamente do bolso do consumidor do produto. Em nenhum momento, nesse quesito, o interesse do governo foi em representar seu eleitorado, nunca se discutiu a questão do risco a saúde e da violência familiar, a mulher, a menores, no trânsito que o uso desses tipos de entorpecentes pode apresentar, mas sim a taxação e arrecadação de impostos cada vez mais altos a ser cobrados do bolso do consumidor, nunca da indústria, e que serão revertidos de forma hipócrita, em campanhas contra o próprio consumo.
Outro fato importante em relação a governos e fabricantes de drogas lícitas é a questão da inércia política e da permissividade da falsa publicidade. As drogas como se sabe são alteradores de humor e realidade, desvia a percepção do individuo em uma sensação hedônica evidenciada pela ilusão; a satisfação imediata e a camuflagem de uma realidade é uma evidência direta de uma política de controle social, o pão e circo; sem objetivos claros, prazeres descartáveis e incapacidade de perceber o ambiente social em que encontra-se, o cidadão comum é exposto a uma forma de alienação, de conformismo, contenção de mudança e transformação de um sistema, a droga age como instrumento fascista de controle social:
“Como o turismo do trabalhador, beber é a válvula de escape que libera tensões enquanto mantêm o sistema que as criou. Nessa cultura de “apertar botão”, nós nos acostumamos a conceber a nós mesmos como simples máquinas a serem operadas: adicione o químico apropriado à equação para obter o resultado desejado. Beber padroniza nossas vidas sociais, ocupando algumas das oito horas por dia que não são já colonizadas pelo trabalho. Ele nos localiza espacialmente – salas, salões de coquetéis, caminhos – e contextualmente – em comportamentos ritualizados e previsíveis – das maneiras mais explicitas que o sistema de controle jamais pôde.”[4]
Já em referência as empresas de tabaco e álcool é, impreterivelmente, antiético e imoral à veiculação de comerciais e propagandas que sustentam um falso valor de liberdade associado aos seus produtos, há inversão completa de valores representada na degradação da vida defasada pelo lucro, o produto no lugar do homem. Ainda em relação a publicidade é inconcebível em uma sociedade evoluída que almeja a igualdade de gêneros, há exposição do gênero feminino e a objetização de corpos como se fossem produtos a serem consumidos.
Questões ambientais e de direito dos animais também estão associadas ao consumo de drogas legais, uma vez que a indústria do tabaco e do álcool despejam toneladas significativas de toxinas e químicos industrializados, que reforçam a necessidade e dependência dos produtos, em rios e oceanos, degradando biomas inteiros; e que tanto tabaco como álcool são, de forma muito cruel, produtos testados em animais, como ratos, macacos e coelhos, ultrapassando qualquer limite ético para a satisfação de seus objetivos.
Até aqui apresentou-se a relação direta das drogas em diversas lutas sociais como a dominação impositiva do Estado, as questões de saúde publica e violência domestica e no transito, a imoralidade da persuasão publicitária, a igualdade de gêneros, degradação ambiental, especismo e sobretudo a inversão capitalista dos valores antropológicos em econômicos.
Entretanto esses muitos problemas relacionados a droga e seu consumo ainda repercute de forma mais intensa se houver análise das drogas consideradas ilícitas.
Se há co-parceria entre empresas e governos, há também financiamento ilegal para a manutenção do tráfico de drogas. O tráfico de drogas sustenta um “Estado Paralelo” que culmina na guerrilha urbana das cidades brasileiras. O crime organizado é sustentado diretamente por três fatores, apoio político, cooperação da polícia e financiamento do usuário. O boicote a drogas ilegais consiste no combate a corrupção do judiciário e do governo, da polícia e do exército, consiste na oferta de dignidade e esperança de meninos pobres e carentes que morrem diariamente para a classe dominante consuma seu baseado, consiste na oferta de oportunidade as vítimas de bala perdida, assaltos e seqüestros, de viverem suas vidas como esperavam, defende o direito ao trabalho digno, aparado pela lei, não a semi-escravidão, exploração de menores e ocupação ilegal de terras rurais e indígenas.
Corrupção, segurança pública, trabalho escravo. Deve-se ter consciência que inseridos em uma sociedade, qualquer ação individual tem peso coletivo e não é justo um indivíduo ser, mesmo em de forma inconsciente, causa e conseqüência sobre vidas que não lhe pertencem. A política se faz nas ruas, com as mãos, narizes e copos vazios.
[1] Trecho da musica Your Bosses Utopia da banda Point of No Return gravada no cd Centelha
[2] Texto tirado do zine Fúria Cotidiana de 2004
[3] Point of No Return encarte do cd Centelha
[4] Texto a Anarquia e o Álcool traduzido por Dennis Bluwol