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Antes de tudo o Straight Edge (SXE) é uma escolha individual, feita de um indivíduo para si próprio. Não há uma doutrina, nem líderes. O Straight Edge por essa característica singular e horizontal acumula tantas definições como adeptos. Cada pessoa adere por um motivo e cada um assimila novas definições junto ao Straight Edge. O princípio Straight Edge consiste no modo de vida relacionado ao punk/hardcore que abomina o uso e consumo de drogas, lícitas e ilícitas, como qualquer substância química psicoativa. Em resumo Straight Edge é um punk/hardcore livre de drogas.

 

Eu sou uma pessoa como você, mas tenho coisas melhores a fazer.[1]

 

O Straight Edge surgiu em meados dos anos 80 na costa oeste dos Estados Unidos, para ser mais preciso na cidade de Washington. Originários do movimento punk local, eles apareceram como oposição a atitude “niilista” que caracterizava o estilo de vida de inúmeros jovens que faziam parte do referido movimento, que incluía no seu repertório o consumo abusivo de drogas (licitas e ilícitas), e um forte apelo a violência e a autodestruição. Nesse período, os jovens moradores da cidade, menores de 18 anos, eram proibidos de freqüentarem espaços destinados a shows de bandas punks, devido o exagerado consumo de drogas nesses locais. Diante desse quadro, alguns jovens decidiram se posicionar em relação a essa norma, pois não concordavam com o fato da proibição, já que eles não consumiam álcool ou qualquer outra substância entorpecente, pelo contrário, partilhavam da idéia de que as drogas não eram obrigações no movimento punk, seu (ab) uso só degradava a cena: menores de idade eram barrados em eventos, alcoólatras sempre causavam brigas e desunião e artistas talentosos e inteligentes morriam ou se tornavam apáticos. Os Straight Edges perceberam que a atitude “faça você mesmo” (Do It Yourself) que para os punks significava poder agir conforme sua liberdade era contraditória uma vez que o indivíduo tornava-se escravo das drogas, para o Straight Edge a tradução apropriada para a liberdade está intrínseca no “faça você mesmo”, envolve o indivíduo ter pleno controle sobre seu corpo, mente e atitudes, e para isso as drogas são um obstáculo.

“O straight edge é uma postura acima de tudo para que o indivíduo tenha mais controle sobre ele mesmo, e para que de repente, uma comunidade hardcore seja mais produtiva e tenha mais controle sobre ela mesma…”[2]

A popularização do estilo de vida Straight Edge veio em um curto período, tendo como marco inicial o surgimento da banda Teen Idols, que trazia em sua formação dois dos mais importantes divulgadores das idéias do movimento: Jeff Nelson e Ian Mckaye. Dentre as importantes contribuições da dupla, destacaríamos a idéia de definir como Straight Edge todos os jovens que como eles também optaram por um estilo de vida livre de drogas. A palavra “Straight Edge” na língua portuguesa significa “esquadro”, o instrumento usado para medir ângulos e tirar linhas perpendiculares. Essa designação, segundo seus idealizadores, foi escolhida a partir de uma comparação da postura retilínea adotada pelos adeptos do Straight Edge e a conformidade dos ângulos retos presente nesse mesmo objeto, dessa comparação todo grupo “careta” do punk foi denominado “Straight Edge Punks”. A consolidação definitiva para que lema “drug free youth” (jovem livre de drogas) transpusesse as fronteiras da capital norte americana veio à posteriori, com o surgimento da banda Minor Threat, criada pelos próprios Nelson e Mckaye, que haviam deixado o Teen Idols. Em poucos meses conseguiram divulgar seu trabalho e as idéias que compreendiam o estilo de vida Straight Edge por todo país através de turnês e de uma grande distribuição de discos.


[1] Trecho traduzido da música Straight Edge do Minor Treath

[2] BITTENCOURT, João Batista. Rebeldes de “mente limpa”: reflexão sobre o ascetismo juvenil contemporâneo. Ciências Sociais. Unicamp 2009

 

Disciplina é a arma de uma luta erguida para ficar.[1]

 

No Brasil o Straight Edge aparece pela primeira vez em meados dos anos 90 em São Paulo. O aparecimento do Straight Edge é geralmente relacionado com dois grupos juvenis com propostas um tanto quanto distintas: O Juli (Juventude Libertária) e o SELF (Straight Edge Life Family). O primeiro era um grupo anarquista que agregava pessoas envolvidas com a cena hardcore/punk da cidade de São Paulo e o segundo grupo foi criado a partir da cisão dos straight edges pertencentes a Juventude Libertária. Era uma espécie de coletivo formado exclusivamente por straight edges que se encarregavam da produção de informativos e organização de shows com o intuito de divulgarem sua filosofia.

Ao contrário do que muitos podem pensar, as formas de conduta adotadas por muitos jovens straight edges no Brasil não são meras reproduções daquelas partilhadas pelos jovens nos Estados Unidos, originadas em Washington. É possível dizer que as semelhanças ficam restritas as chamadas “regras do movimento” como o boicote às drogas, ou mesmo, ao que pode se definir como “estética grupal”, que compreende música e vestuário. É possível dizer que existem mais diferenças do que semelhanças entre os jovens straight edges dos dois países. De acordo com a pesquisa desenvolvida pelo sociólogo norte americano Ross Haenfler com jovens de Los Angeles, New York e Connecticut, o Straight Edge norte americano possui bastante influência de um movimento que nos Estados Unidos recebeu o nome de New Left Middle Class, uma espécie de radicalismo mais orientado por questões de natureza moral ou humanitária, assim como aponta também certa herança cristã. No Brasil, mesmo havendo straight edges que se autodefinem como cristãos, é possível afirmar que não existe nenhuma influência marcante dessa doutrina na respectiva filosofia de vida. Grande parte dos jovens entrevistados na pesquisa do antropólogo brasileiro João Bittencourt, se diz “ateus” e discordam do discurso que busca aproximar Straight Edge e Cristianismo. Mesmo os que se consideram cristãos costumam afirmar que se trata de “posturas” diferenciadas.

“A busca por uma identidade própria não deve implicar a completa rejeição do que vem de fora (assim não faríamos shows). O fato é que a realidade que enfrentamos é bastante diferente da que eles enfrentam, então nossas prioridades, nosso comportamento, nossa política não pode ser exatamente igual a deles. Temos que encontrar elementos que nos tornam únicos, que servirão de parâmetros para as atitudes que devemos tomar. Temos que ter a nossa cara.”[2]

Além de reivindicarem uma total desvinculação com os dogmas do Cristianismo, existe um outro discurso entre os straight edges brasileiros que faz com que os mesmos se percebam como diferentes em relação a seus companheiros norte-americanos. A diferença estaria em um engajamento, construído a partir de um questionamento mais intenso dos valores disseminados pela sociedade capitalista, assim como uma participação mais efetiva no que diz respeito a difusão do estilo de vida como forma de contestação. Para muitos straight edges, as especificidades do movimento variam de acordo com o contexto histórico de cada país.

 


[1] Trecho traduzido da música Unbroken Feelings da banda Self Conviction, banda que teve origem do Personal Choice, banda embrionária junto com o No Violence do Straight Edge no Brasil

[2] Point of No Return encarte do cd Centelha

 

As marcas negras que cruzam as mãos que se erguem e tatuam a alma daqueles que resistem![1]

 

O principal símbolo Straight Edge é o “X”. Sua origem como identificação dessa postura de vida vem da Califórnia, onde o Teen Idles ao fazer um show percebeu a política local de segurança que marcava com um “X” as costas das mãos os menores de idade, permitido a estes participar dos shows sem comprar e consumir bebidas alcoólicas dentro dos estabelecimentos.

O Teen Idles importou essa idéia e sugeriu aos promotores de eventos em Washington, por ironia, não só os menores, mas muitas pessoas com idade legal se solidarizando com a causa começaram a marcar o “X” espontaneamente, mostrando assim que não queriam beber e auto-afirmando sua postura diante a cena punk/hardcore. Com o tempo o “X” tornou-se símbolo do Straight Edge, aparecendo em nomes e logotipos de bandas, camisetas, tatuagens e afins.

Os três “X” (XXX) vistos frequentemente na cena tiveram origem de um trabalho gráfico de Jeff Nelson, que substituiu as três estrelas da bandeira de sua cidade natal, Washington, por três “X” na capa de uma coletânea em que participava sua banda. Muitos consideram os XXX uma representação de “Corpo”, “Mente” e “Atitude”. Na verdade o número de “X” é irrelevante, independente da quantidade eles significam a mesma coisa.

O “X” além de transmitir comprometimento a ideologia Straight Edge é considerado marca de negação e identidade. Muitos adeptos utilizam-no nos nomes (xnomex; nomexsobrenome; nome xxx). Mas para algumas pessoas os “X” seria um rótulo assim como o “A” para o anarco-punk. Na realidade o “X” é apenas uma forma de encontrar pessoas que queiram trocar idéias e não forma de segregar ou discriminar.

 


[1] Trecho da música Negação da banda Confronto gravada no cd Causa Mortis

 

Respeito para aqueles que estão ao seu lado[1]

 

O Hardline é a propaganda negativa do Straight Edge até hoje. A maioria das pessoas e a mídia costumam associar o Hardline como um straight edge radical, intolerante as pessoas com convicções diferentes, adeptos a violência e agressões deliberadas.

Na verdade o Straight Edge e o Hardline são concepções distintas. O Straight Edge propõe a abstinência de entorpecentes como uma postura individual de negação a condicionamentos sociais e a aceitação de forma de vida mais integra, de respeito a todos. Já o Hardline se determina como um movimento (o que já rompe com o conceito de Straight Edge) de caráter ecológico e radical que diagnostica os problemas da pós modernidade através das transgressões do homem as leis da natureza.

O Hardline aparentemente apareceu a década de 80 no mesmo período que o Straight Edge o que gerou associação da opinião pública sobre as duas filosofias como uma só, uma vez que possuíam raízes semelhantes, diretamente ligada ao punk/hardcore e defendiam o rompimento com as drogas.

O Hardline, embora livre de drogas, adotava uma postura ideológica fascista ao se colocar contra as transgressões sociais do homem, suas crenças estavam vinculadas ao veganismo, ao pró-life e ao homofobismo, e suas postura representava a herança do espírito gangueiro que o niilismo punk apresentava na época. Contrários a essa idéia, os straight edges colocavam sua postura como uma liberdade pessoal, as pessoas deveriam sentir-se bem do jeito que eram. Seu rompimento com as drogas antes de mais nada era a tentativa do rompimento com a autodestruição da cena e não a imposição de valores e intolerância.

“E, obviamente, um movimento é contrário ao indivíduo, esses movimentos não ligam para os indivíduos. Mas eu estava cantando justamente sobre um indivíduo. Movimentos há regras, quando você tem algo que pode ser percebido como regras as pessoas sentem que elas podem impo-las. Mas para mim nunca existiu nenhuma regra. E, claro, quando você tem regras você acaba atraindo fundamentalistas, puristas ou pessoas intolerantes e essas pessoas geralmente têm uma barriga cheia de violência. Elas querem botar isso pra fora e o jeito de fazer isso é procurando algo para puxar o gatilho. E se existem regras esses são os termos perfeitos para isso”.[2]

O antropologo João Bitencourt em sua pesquisa pela Unicamp sobre Straight Edge identificou por entrevistas que a filosofia surgiu como uma alternativa as práticas do “guanguismo” disseminado pela “cultura punk”, não havia interesses em brigas e confusões com objetivos de demarcar territórios ou sobrepor ideologias:

“Enquanto que esse pessoal,  pra eles o punk era mais esse lance de andar com certas pessoas e ter gangue, enfim, pra mim e pra essa minha turma imediata de amigos era diferente. Era um pessoal que andava de skate, lia sobre anarquismo e ouvia Minor Threat, 7 Seconds”[3]

Embora o surgimento na mesma época e no mesmo meio e ideais semelhantes como a abstinência das drogas, a conduta ativista, o fator ideológico e a determinação sobre movimento diferenciavam Straight Edge e o Hardline. Os hardlines não  são straight edge e os straight edges os querem longe da cena

 


 

[1] Trecho traduzido da música Trust da banda Still x Strong

[2] Entrevista de Ian Mackeye do Teen Idles, Minor Treath e Fugazzi em sua visita ao Brasil.

[3] BITTENCOURT, João Batista.Quando a disciplina torna-se pratica de resistência: uma cartografia sobre os straight edges de São Paulo. Ciências Sociais. Unicamp 2009

 

Há diversas razões para uma pessoa aderir ao Straight Edge. O motivo básico dessa filosofia é a dissociação da vida a autodestruição, violência e danos a saúde que o consumo de droga pode provocar nas pessoas. Como bem se sabe, as drogas possuem efeitos devastadores na condição física e mental do ser humano. Embora as drogas ilícitas produzam efeitos degenerativos no sistema nervoso, as drogas lícitas, consideradas sociais (álcool e tabaco) também, são igualmente autodestritivas, alterando a percepção e condição física.

Muitos são Straight Edge por preferir viver a realidade à uma ilusão. Tomando por realidade a verdade dos fatos, a preferência por um estilo de vida livre de substâncias que alterem a capacidade de pensar, perceber e agir, representa autonomia do ser sobre si e evidencia a livre manifestação da consciência e do ser livre. As drogas principalmente as psicoativas  produzem efeitos de ilusão e paranóia que até em doses moderadas interferem na capacidade intelectual, de percepção e ação humana. Sob efeito, muitos não têm controle total sobre a mente, não pensam por si, não percebem o real, não determinam suas ações.

“Eu achava interessante como o Straight Edge parece ter a percepção de que há  uma contradição entre você pregar e tentar aplicar na sua vida uma ideologia de liberdade individual, e não conseguir exercer essa liberdade porque você é viciado numa substância, entendeu? Porque você acaba tendo um monte de comportamentos condicionados por causa dessas substâncias mais ainda do que você já é condicionado e também por outros fatores…”[1]

A questão do autocontrole sobre si e a realidade que o cerca também aponta que a droga é base de anestesia política, as pessoas se alienam para a verdade em uma satisfação momentânea, é a sobreposição do hedonismo para com a integridade de valores sociais. A droga desvia o foco de luta, pessoal ou coletiva, representa o conformismo para uma ordem imposta, o abandono de ideais, demonstra a contenção da contestação.

Algumas pessoas percebem no ato de fumar, beber esse drogar uma personificação da rebeldia. O Straight Edge considera que a rebeldia não está no âmbito do consumo de drogas, mas na negação de imposições sociais. Álcool e tabaco, por consenso, são considerados drogas sociais e por cultura, consumidas e interações sócias. O fato de que a sociedade considere normal ou interessante consumir esse tipo de droga sem questionamento, não é argumento válido para a utilização dessas substancias. Não se precisa de drogas para se divertir e não é porque a sociedade civil e a indústria cultural dizem que não há problemas no hábito de beber e fumar é que se deve seguí-los. Todos são capazes de pensar por si e fazer suas próprias escolhas. Romper com que o senso comum e a sociedade impõem também é uma atitude libertária.

“Como tudo passa por transformações, eu também passei por transformações. Sempre fui aquele moleque que morria de vontade de fazer tudo o que os outros faziam, no sentido de: “também quero ir pra balada, também quero beber, também quero fumar, também quero fazer o que todos fazem, também quero interagi”; e nenhuma dessas formas, com o passar do tempo, me levavam a interagir. Talvez o fato de você beber e fumar nem façam com que você interaja. Para mim nunca foi, para as outras pessoas pode ser que seja. Mas eu vi que podia fornecer para as pessoas e pra mim mesmo algo que fosse muito melhor do que deixar de ser eu, em todas as circunstâncias, tanto pelo fato de fumar, tanto pelo fato de beber, mas principalmente pelo fato de querer me incluir numa porção de coisas que não sou eu. Eu me tornei Straight Edge, a partir do momento que me vi transgressor de tudo isso, a partir do momento que eu vi que eu, necessariamente, não tinha que seguir o rebanho para que eu pudesse ser aceito[2]

Ainda há questões políticas no boicote a drogas legais e ilegais. Em relação ao tabaco e ao álcool, a abstinência representa uma luta contra corporações capitalistas apoiadas pelo sistema (lucros exorbitantes em conseqüência a degradação da vida, que as companhias do tabaco e do álcool acumulam e repassam em altos impostos aos governos que deveriam zelar pelos interesses da sociedade e não pelo lobby econômico); contra a degradação ambiental pelo despejo de poluentes dessa indústria (toxinas e químicos industrializados), contra desrespeito a outras vidas e o especismo caracterizado pela experimentação dos produtos em animais; contra a violência doméstica e no trânsito, contra o patriarcado e machismo (abordado nas campanhas de bebidas alcoólicas) e conta o discurso persuasivo construído pela deformação da verdade pela publicidade e pela mídia (campanhas milionárias mostrando a liberdade contraditória causada pela dependência). O boicote a drogas ilegais consiste no combate a violência urbana, sustentada pelo usuário de drogas (armas ilegais, crime organizado e guerra ao tráfico); no combate a corrupção, sustentada pelo usuário de drogas (polícia, exército e judiciário) e no combate a desigualdade, sustentada pelo usuário de drogas; (ocupação em terras indígenas e rurais, trabalhos escravos e semi-escravos, excluso de direitos, e exploração de menores). Usar drogas, no caso, não é uma atitude rebelde, mas uma atitude conformista, não se opor ao sistema, mas apoiá-lo.

 


[1] BITTENCOURT, João Batista.Quando a disciplina torna-se pratica de resistência: uma cartografia sobre os straight edges de São Paulo. Ciências Sociais. Unicamp 2009

[2] BITTENCOURT, João Batista.Quando a disciplina torna-se pratica de resistência: uma cartografia sobre os straight edges de São Paulo. Ciências Sociais. Unicamp 2009

 

Nossa história constrói-se agora na luta contra a tirania do capital[1]

 

A política, segundo Hannah Arendt e Jacques Rancière, é uma atividade que deve apontar para uma preocupação do que é público, de domínio comum, dessa maneira deve-se analisar três fatores importantes: a política se dá no debate e reflexão, é ação conjunta e coletiva e tem como foco uma reparação de problema ou injustiça. Por esse espectro não usar drogas não seria uma atividade política uma vez que parte do âmbito individual (privado) que sem reflexão aparente pode-se dar de maneira involuntária em qualquer ambiente, não só no punk/hardcore. Entretanto, a reflexão consciente de um grupo de indivíduos cerca a um ideal comum, a ação prática em suas vidas de suas convicções e o potencial do privado para o coletivo não coloca o Straight Edge como política, mas como um possível meio para que seus membros transformem-se em atuantes políticos.

Pessoal ou político, é tudo a mesma coisa. O pessoal é político. As decisões que você toma em sua vida pessoal afetam os outros em suas vidas políticas. O straight edge deveria ser só o começo.[2]

Posto isso o Straight Edge relaciona-se com a política da mesma forma que todo o movimento punk. Atitude libertária crítica ao Status Quo e negação de valores sociais. Um Straight Edge normalmente identifica-se com uma postura de não violência, consciência política e atitudes não conformistas, defendendo igualdade e o direito a diversidade, opondo-se a qualquer tipo de repressão social, racial e homofóbica. Não há uma militância especifica embora a maioria dos membros quando assumem uma postura política de forma mais intensa tendem a associarem-se as idéias de esquerda, comunismo e anarquismo.

“O Hardcore emergiu como contra-cultura de protesto e resistência ao sistema capitalista e aos padrões de comportamento massificados da sociedade. Criticando as diferentes formas de exploração das elites de seus paises, assim o Straight Edge inserido nesse meio é, essencialmente, uma resistência anti-imperialista também.” [3]

Ideologias políticas a parte, o Straight Edge apresenta-se essencialmente político. O consumo de drogas lícitas ou ilícitas traz conseqüências que ultrapassam a autodestruição e a esfera particular do usuário, transferindo-se para uma esfera social, muitas vezes despercebida pelo imediatismo e organização da pós-modernidade.

O governo como concepção é um órgão institucional que por consenso democrático de uma população deveria cuidar e zelar pelos interesses comuns da sociedade a quem representa. Ao contrário disso o que vemos é uma co-parceira entre governos e indústrias de cigarros e bebidas alcoólicas, sustentada pelo lobby dessas corporações e pelo interesse econômico na receita criada por impostos altos cobrados as companhias, que saem diretamente do bolso do consumidor do produto. Em nenhum momento, nesse quesito, o interesse do governo foi em representar seu eleitorado, nunca se discutiu a questão do risco a saúde e da violência familiar, a mulher, a menores, no trânsito que o uso desses tipos de entorpecentes pode apresentar, mas sim a taxação e arrecadação de impostos cada vez mais altos a ser cobrados do bolso do consumidor, nunca da indústria, e que serão revertidos de forma hipócrita, em campanhas contra o próprio consumo.

Outro fato importante em relação a governos e fabricantes de drogas lícitas é a questão da inércia política e da permissividade da falsa publicidade. As drogas como se sabe são alteradores de humor e realidade, desvia a percepção do individuo em uma sensação hedônica evidenciada pela ilusão; a satisfação imediata e a camuflagem de uma realidade é uma evidência direta de uma política de controle social, o pão e circo; sem objetivos claros, prazeres descartáveis e incapacidade de perceber o ambiente social em que encontra-se, o cidadão comum é exposto a uma forma de alienação, de conformismo, contenção de mudança e transformação de um sistema, a droga age como instrumento fascista de controle social:

“Como o turismo do trabalhador, beber é a válvula de escape que libera tensões enquanto mantêm o sistema que as criou. Nessa cultura de “apertar botão”, nós nos acostumamos a conceber a nós mesmos como simples máquinas a serem operadas: adicione o químico apropriado à equação para obter o resultado desejado. Beber padroniza nossas vidas sociais, ocupando algumas das oito horas por dia que não são já colonizadas pelo trabalho. Ele nos localiza espacialmente – salas, salões de coquetéis, caminhos – e contextualmente – em comportamentos ritualizados e previsíveis – das maneiras mais explicitas que o sistema de controle jamais pôde.”[4]

Já em referência as empresas de tabaco e álcool é, impreterivelmente, antiético e imoral à veiculação de comerciais e propagandas que sustentam um falso valor de liberdade associado aos seus produtos, há inversão completa de valores representada na degradação da vida defasada pelo lucro, o produto no lugar do homem. Ainda em relação a publicidade é inconcebível em uma sociedade evoluída que almeja a igualdade de gêneros, há exposição do gênero feminino e a objetização de corpos como se fossem produtos a serem consumidos.

Questões ambientais e de direito dos animais também estão associadas ao consumo de drogas legais, uma vez que a indústria do tabaco e do álcool despejam toneladas significativas de toxinas e químicos industrializados, que reforçam a necessidade e dependência dos produtos, em rios e oceanos, degradando biomas inteiros; e que tanto tabaco como álcool são, de forma muito cruel, produtos testados em animais, como ratos, macacos e coelhos, ultrapassando qualquer limite ético para a satisfação de seus objetivos.

Até aqui apresentou-se a relação direta das drogas em diversas lutas sociais como a dominação impositiva do Estado, as questões de saúde publica e violência domestica e no transito, a imoralidade da persuasão publicitária, a igualdade de gêneros, degradação ambiental, especismo e sobretudo a inversão capitalista dos valores antropológicos em econômicos.

Entretanto esses muitos problemas relacionados a droga e seu consumo ainda repercute de forma mais intensa se houver análise das drogas consideradas ilícitas.

Se há co-parceria entre empresas e governos, há também financiamento ilegal para a manutenção do tráfico de drogas. O tráfico de drogas sustenta um “Estado Paralelo” que culmina na guerrilha urbana das cidades brasileiras. O crime organizado é sustentado diretamente por três fatores, apoio político, cooperação da polícia e financiamento do usuário. O boicote a drogas ilegais consiste no combate a corrupção do judiciário e do governo, da polícia e do exército, consiste na oferta de dignidade e esperança de meninos pobres e carentes que morrem diariamente para a classe dominante consuma seu baseado, consiste na oferta de oportunidade as vítimas de bala perdida, assaltos e seqüestros, de viverem suas vidas como esperavam, defende o direito ao trabalho digno, aparado pela lei, não a semi-escravidão, exploração de menores e ocupação ilegal de terras rurais e indígenas.

Corrupção, segurança pública, trabalho escravo. Deve-se ter consciência que inseridos em uma sociedade, qualquer ação individual tem peso coletivo e não é justo um indivíduo ser, mesmo em de forma inconsciente, causa e conseqüência sobre vidas que não lhe pertencem. A política se faz nas ruas, com as mãos, narizes e copos vazios.


[1] Trecho da musica Your Bosses Utopia da banda Point of No Return gravada no cd Centelha

[2] Texto tirado do zine Fúria Cotidiana de 2004

[3] Point of No Return encarte do cd Centelha

[4] Texto a Anarquia e o Álcool traduzido por Dennis Bluwol

 

Nenhum santuário ou refúgio para mim e minhas convicções[1]

 

Para alguns adeptos do Straight Edge, uma mente desobstruída é o melhor caminho para viver de forma purificada. Em sua maioria os “edge kids” consideram-se ateístas ou agnósticos, acreditando em auto-responsabilidade e controle de suas vidas, rejeitando a idéia de divindades ou qualquer dogma moral imposto por uma doutrina religiosa ou um ser “superior”.

“Ser purificado não é uma questão espiritual ou ser superior, mas sim você ficar livre daquilo que te contamina. O que é uma coisa pura? Uma flor de lótus? É uma planta, é uma flor que nasce no meio do lixo, mas ela não se contamina. Isso que é você ser purificado. Porque a palavra purificado tem um peso espiritual, as vezes até romantizado. Tem uma carga moral muito forte. Você pode substituir a palavra purificado por limpo. O que é ser limpo? É não ter nada que suje sua mente. Você tem que ter cuidado para não cair no puritanismo que já é uma coisa diferente, uma coisa exagerada, uma coisa que chega até gerar uma intolerância.”[2]

O discurso ateísta e agnóstico da maioria dos adeptos no Brasil é coerente com a postura de autonomia sobre o corpo e a mente, uma vez que há a negação de um ser superior a outro, onipotente a todos e que exerça poder sobre outro. A idéia de “Deus” é um conceito muito abrangente, polêmico e indefinido, é discutido a séculos por filósofos, teólogos e academias religiosas e intelectuais sem um consenso aparente, o que exime a preocupação de colocar-se essa questão em pauta.

Ainda que argumentos sobre a existência ou não de um ser divino apareçam por todos os lados, essa é uma questão muito particular e pessoal e não cabe ao Straight Edge policiar a crença e liberdade ideológica de seus adeptos. Da concepção de que o Straight Edge não é uma religião e nem uma doutrina, infere-se que não há princípios morais a serem impostos salvo o fato de não usar nenhuma substância química entorpecente e ter comprometimento com essa atitude. Dessa forma um Straight Edge pode seguir a religião que quiser se achar necessário. Desde que não use drogas e tenha alguma relação com a comunidade punk/hardcore, não há certo ou errado.

 


[1] Trecho traduzido da musica Mindkiller da banda Live by the Fist gravada no cd No End in Sight

[2] BITTENCOURT, João Batista.Quando a disciplina torna-se pratica de resistência: uma cartografia sobre os straight edges de São Paulo. Ciências Sociais. Unicamp 2009

 

Nossos corpos formam um campo de batalha pelo direito de escolher o rumo de nossas vidas![1]

 

O Feminismo dentro do Straight Edge é visto de maneira positiva e vem crescendo além da participação e afirmação feminina dentro da cena. O Straight Edge, na abstenção das drogas, transfere para o individuo autonomia e responsabilidade sobre si, é um controle próprio de sobre suas perspectivas e ações que revelam respeito a si e pelos indivíduos a sua volta, dessa maneira, essa postura de respeito associada à negação de valores sociais impositivos constrói um Straight Edge livre de preconceitos e diferenciação de gêneros.

Nos últimos anos associação das mulheres dentro do Straight Edge teve como conseqüências uma maior produção de bandas, zines e eventos, inserindo a afirmação da mulher perante todo punk/hardcore, o que trouxe as idéias, pensamentos e preocupações que expõem temas antisexistas como a igualdade de gêneros e o direito sobre o próprio corpo. A afirmação da mulher dentro da estruturação patriarcal de sociedade e o debate da legalização do aborto (pró-choices e pró-lifes) são questões de âmbito amplamente social que repercutem dentro do Straight Edge de maneira  interessante, uma vez que, ao mesmo tempo em que há a sustentação e a defesa das liberdades e igualdades de gêneros, instaura-se dentro da cena a polêmica sobre questões relacionadas  ao  direito.

A colocação do gênero feminino dentro do Straight Edge possibilita a discussão de papel social e promove o debate do consumo de drogas como fator de dominação social. A luta da mulher por uma colocação social equalitária, sem sexismo e diferenciação entre os indivíduos, sem dominação política, econômica e cultural revela a necessidade de controle sobre seus próprios pensamentos e atitudes e assim, como a droga se torna um obstáculo a postura libertária, também se faz problema na libertação de gêneros na esfera coletiva e privada. O autocontrole é fundamental para afirmação perante a sociedade, quando a mulher percebe com clareza as formas de dominação e tem ciência de sua realidade a luta avança os limites do campo individual para o campo reflexivo e de ação política.

Na sociedade capitalista, onde o consumo imediato, as relações líquidas e a potencializarão do lucro substituem os valores humanos, como expressou o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, o boicote torna-se uma importante arma política uma vez que fere o coração do sistema, a economia. Dizer não as drogas, principalmente o álcool, significa opor-se não só a companhias capitalistas e seus sistemas de dominação como é dizer não ao patriarcado instaurado na cultura pela comunicação social, que coloca de forma premeditada a mulher como objeto sexual a ser consumido como a bebida alcoólica, não levando em contas o caráter humano do individuo, além de vender a falsa imagem de lubrificante social em que homens e mulheres não conseguem interações sociais e diversão sem o copo na mão. O álcool revela também uma forte pressão sobre a mulher quando inserida em uma estrutura familiar, o álcool nunca diminui o patriarcado pelo contrário o sustenta em violências domésticas e agressões inaceitáveis entre mulheres e crianças.

A outra questão evidenciada no Straight Edge em relação ao Feminismo é o debate da legalização do aborto. O pró-choices defendem o direito de escolha sobre o próprio corpo enquanto os pró-lifes defendem o direito a vida. A questão é que o direito ao corpo não impede a manutenção da vida. Deve-se lembrar que legalizar o aborto não significa apoiar a prática.

O conceito pró-life de vida é amplamente baseado na concepção religiosa em que o embrião a partir da concepção já apresentaria alma e por ventura vida. Se os straight edges, em sua maioria, dizem-se ateus ou agnósticos é inconcebível que os mesmo que de determinam assim defendam a criminalização do aborto visto que a ciência através de pesquisas e experimentações prova, com senso crítico, o fato de que até o terceiro mês de gestação o feto não possui atividade cerebral e nervosa e, portanto, não é vida e sim um potencial de vida, como o óvulo e o espermatozóide.

Assumir uma postura pró-choice é mais condizente com a determinação de controle sobre si, uma vez que permite a mulher controlar seu corpo, é mais condizente com a postura de respeito uma vez que dá possibilidades e responsabilidades iguais entre homens e mulheres sobre seus corpos, é mais condizente com a questão de saúde pública que com a legalização ofereceria serviços especializados e democratizaria o atendimento, é mais condizente com uma igualdade social uma vez que diminui o número de abandono de menores. Não há uma imposição nem uma tentativa de regulamentação do Straight Edge em relação as escolhas individuais, o individuo pode se dizer tanto pró-choice, como pró-life ou se abster, mas é inconcebível e contraditório pessoas sem visão religiosa não defender o direito a escolha.

 


[1] Trecho da música Irmãs da banda feminista xInfectx

 

Lutar contra leis que matam, mutilam e torturam![1]

 

Veganismo consiste em não consumir nenhum produto de origem animal e testado em animais assim como não freqüentar lugares onde haja exploração desnecessária de outra espécie senciente. O Straight Edge é abster-se das drogas. Ao contrário do que se pensa Straight Edge não é sinônimo de Veganismo embora a maioria dos straight edges (ainda mais no Brasil) adote esse tipo de dieta.

O Straight Edge defende em seu autocontrole duas idéias básicas e essenciais para a convivência humana, o respeito a si e a outros e a liberdade de si e de outros. Esse argumento é intrinsecamente a favor do Veganismo uma vez que é inaceitável a mercatilização da vida pela indústria da carne e pelo especismo imposto pela cultura da carne. O respeito aos animais está presente em considerá-los seres sencientes que sofrem dor, tem anseio e desejos e são capazes de perceber o ambiente e decidir sobre sua própria vida, dessa forma todos os seres devem ter a liberdade de viver e agir como sua natureza possibilita, não podendo jamais viver escravizados, confinados, torturados e mortos para a satisfação humana, não há dignidade nessa ação. Nesse contexto, todo Straight Edge consciente, ético e verdadeiro aos seus valores, com conhecimento da causa tem responsabilidade sobre essas vidas, o Veganismo passa a ser uma evolução dentro do Straight Edge.

“O que de inicio era tido pelos jovens como posicionamento estritamente pessoal, tornou-se grito de contestação, uma resposta coletiva as inúmeras formas de desigualdades existentes no cotidiano. É uma grande incoerência adotar um estilo de vida drug free, e esquecer das lutas dos direitos dos animais, pois os dois posicionamentos se completam.”[2]

A questão dos direitos dos animais é muito ampla, passa do reconhecimento a liberdade e da contraposição a vida como mercadoria, da consciência ética e da postura moral; à relações coletivas como: o desenvolvimento sustentável, crise da fome, crise da água, consumismo e mercantilização da vida; à relações privadas como a saúde; e à negações ideológicas como racismo, sexismo, homofobismo e especismo. A amplitude do tema não restringe o conteúdo ao Straight Edge, o abolicionismo é uma causa aberta a todas as pessoas, independente de gostos musicais, idade, aparência, postura e crenças. O Veganismo é uma idéia bastante discutida e difundida dentro da comunidade punk/hardcore, portanto não é uma exclusividade do Straight Edge, embora este seja a frente do punk/hardcore que mais identificou-se como a postura, é mais coerente ligá-lo a uma causa comum de toda ala politizada e idealista do punk/hardcore.

 


[1] Não vou Aceitar, música do Good Intentions presente no cd Até o Fim

[2] BITTENCOURT, João Batista. Rebeldes de “mente limpa”: reflexão sobre o ascetismo juvenil contemporâneo. Ciências Sociais. Unicamp 2009

 

O Straight Edge por todas as atribuições relacionadas ao boicote as drogas seja individual ou político social possui um valor agregado que carrega um caráter ideológico muito grande tanto para o individuo que se mantém na postura como para com a cena como comunidade. Dessa forma Straight Edge não é moda e sim compromisso.

“O Straight Edge é a forma que nos posicionamos na cena hardcore/punk. Viver livre de drogas é como nos posicionamos no mundo. Esse posicionamento não é um simples rótulo, mas sim o que nós somos.”[1]

Ser independente em relação as drogas não significa preconceito com quem as usam. O Straight Edge é baseado na idéia de que todas as pessoas devem ter a possibilidade de se sentirem a vontade da forma que quiserem, bebendo, fumando ou não. Straight Edge é uma escolha individual e como toda, respeita as mais diversas opiniões.

 


[1] Live by the Fist encarte do cd No end in Sight

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